terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

RESENHA FILME: UM DIA DE FÚRIA (Joel Schumacher – 1993)



RESENHA FILME: UM DIA DE FÚRIA (Joel Schumacher – 1993)

O INIMIGO OCULTO

Por Uiara Melo

O filme Um dia de fúria (Falling Down) foi gravado em 1993, é uma produção americana, dirigido por Joel Schumacher, com a atuação de Michael Douglas no papel de Willian Foster um cidadão americano que aparenta ter por volta dos 40 anos de idade. Willian se separou de sua esposa Beth a qual mantinha um relacionamento conturbado e essa separação não foi “amigável”. Willian e Beth tem uma filha chamada Adéli de aproximadamente 7 anos que quase não vê o pai por sua guarda estar com a mãe, e também por que a Beth tem medo das ações de Willian, talvez das agressões.
            O filme se inicia com o Willian parado em um congestionamento, e o ambiente onde ele está inserido, começa a contribuir com ações externas que irão desencadear em Willian, reações inapropriadas ou até mesmo, apropriadas para ele naquele momento. O ambiente oferece desde ruídos insuportáveis, a incômodos simples que talvez, não fossem tão significativos se ele estivesse exposto em um ambiente calmo e organizado.
            De acordo com Fontes (2003, p. 176) “No caso psíquico, argumenta-se que uma circunstância externa faz com que o indivíduo se sinta emocional e que o sentimento o leva a encetar a ação apropriada”.
            Willian já com o seu nível de irritabilidade ativado, deixa o seu carro e começa a caminhar em direção a casa de sua esposa à pé, e nesse percurso ele tenta por várias vezes falar com ela e não consegue. O seu primeiro contato hostil é com um vendedor de uma loja de conveniência, e por causa de uma moeda e também pela indiferença do vendedor, William deixa explodir o seu primeiro momento de fúria com um taco de baseball, ele ataca-o e vai embora. E a partir daí, qualquer fator ambiental e social como, o calor, a hostilidade das pessoas reforça a sua fúria interna.
            Segundo Fontes (2003, p. 187) “Uma predisposição emocional particularmente importante é aquela na qual o indivíduo favorece uma determinada pessoa, grupo ou estado de coisas. É difícil definir as consequências particulares do comportamento “favorável”, mas um efeito razoavelmente específico muitas vezes pode ser descoberto”.
            Em 20:20 de filme Willian deixa espaçar um indício de que o ambiente está influenciando as suas emoções quando diz: “ Eu levo os meus problemas para casa” e “ Eu tive uma manhã muito estranha”. Ele agora é uma bomba humana em plena exaustão. O que podemos esperar de uma pessoa determinada em atingir o seu objetivo? Mesmo que algum tempo depois William tenha conseguido falar com sua esposa, e deixar claro quando diz “eu tenho que ir para casa”, ele é impedido e ameaçado mais uma vez por ela de não deixá-lo, visitar a sua filha. Percebemos então, que ele é privado em ter qualquer contato afetivo com a Adéli.
            Nesse meio tempo, Willian começa a despertar interesse da policia local, porque as suas vítimas começam a denunciá-lo. E por isso, entra em jogo o sargento Prendergast que está preste a se aposentar, mas é motivado indiretamente a solucionar esse caso, e enquanto isso, Willian continua caminhando de volta para casa, acompanhado do seu outro eu, o seu inimigo oculto. Antes ele tinha em mãos um taco de baseball, mas agora ele leva consigo uma bolsa recheada de armas, o seu nível de periculosidade aumenta a cada minuto.
            Somos seres inconstantes, e diariamente somos colocados em prova, testes assim que abrimos os olhos, todos os dias pela manhã, tentamos sempre nos propor situações confortáveis, agradáveis e suportáveis. As nossas emoções sempre são ativadas quando nos dispomos em contato com outras pessoas, porque não podemos controlar a subjetividade do outro. Willian, então, passa a ser procurado pelos policiais devido os riscos que ele tem proporciona a população. Não sabemos se o William tem algum diagnóstico de psicossomática, psicopatia ou predisposição para esse tipo de comportamento.
            Fontes (2003, p.181) diz que “Notamos que os campos da motivação e da emoção estão muito próximos. Na verdade, podem se sobrepor. Qualquer privação extrema age provavelmente como uma operação emocional.”
            William é um homem com um alto grau de estresse, tudo indica que o reforçador desse estresse, seja a sua relação familiar e o seu relacionamento profissional, porque ele deixa entender isso quando em alguns momentos do filme diz frases subliminares como: “Já passei do ponto sem volta”, “Eu perdi o meu emprego, na verdade ele me perdeu, sou muito educado, e pouco habilitado... e sou absoluto, não sou economicamente viável” e quando também relata o desejo de ter uma família feliz, o que não pertence a sua realidade atual. Ele chega ao auge de sua desconexão emocional quando não aceita ser preso, para ele isso talvez, pudesse ser impotência, e assim, ele faz com que o sargento Prendergast atire nele em legitima defesa. Willian morrer.
            Para Fontes (2003, p.182) “Definimos uma emoção, na medida em que se quer fazê-lo, como um estado particular de alta ou baixa frequência de uma ou mais respostas induzidas por qualquer uma dentre uma classe de operações”.
            Willian pode ter sido somente um homem que foi testado pelos os limites de suas emoções. Até aonde vai o seu limite, o seu controle emocional? Apesar de tudo o que foi mostrado no filme, não temos como afirmar se ele teria algum tipo de psicopatia. Até que ponto podemos nos considerarmos loucos? Sendo assim, o título dessa resenha “O inimigo Oculto”, se refere a isso, porque não nos conhecemos de verdade, basta somente nos colocarmos em um ambiente incomum, para que possamos expelir de nós o nosso verdadeiro EU.  Somos ou não pessoas “normais”?

Referência bibliográfica:
SKINNER, B.F. Ciência e Comportamento Humano. São Paulo. Martins Fontes, 2003.

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