quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Resenha - FILME: O BICHO DE SETE CABEÇAS (2000) LIVRO: O HOLOCAUSTO BRASILEIRO (2013)

FILME: O BICHO DE SETE CABEÇAS (2000)

LIVRO: O HOLOCAUSTO BRASILEIRO (2013)

Por Uiara Melo

              Os loucos que não eram tão loucos assim, o livro O holocausto brasileiro (2003) assim como o filme O bicho de sete cabeças (2000), nos relatam a omissão da sociedade com aqueles que precisam ou não de cuidados médicos e psiquiátricos. No século XX e até mesmo no século XXI, aquelas pessoas que não se enquadravam nos parâmetros sociais impostos pela sociedade, eram levados para a clínica manicomial “casa de repouso”. E muitas das vezes, essas pessoas, que não tinham problemas mentais consideráveis, acabavam desenvolvendo-as, devido aos tratamentos de torturas e a ingestão desnecessária de remédios psicoterápicos. Isso acontece com o personagem de Rodrigo Santoro, o Neto, que no filme é levado pelo pai a uma clínica contra a sua vontade porque, os dois não conseguem manter uma boa comunicação, um dialogo entre eles. Isso acontece porque esse pai não sabe como lidar com o problema das drogas, e acredita que um tratamento enérgico irá melhorar as condições do seu filho. Porém, aconteceu tudo ao contrário, para solucionar um problema, foi gerado outro maior, a loucura. Agora o Neto que só tinha o problema com a dependência química, passa a ter problemas com a loucura, que é o efeito colateral dos remédios psicoterápicos e dos tratamentos elétricos que muitos justificam o uso pelo mau comportamento.
            Isso também se passa no livro-reportagem da Arbex (2003), que diz que muitas mulheres que eram abusadas sexualmente por seus senhores ou familiares, eram colocadas no trem que seguia até a Colônia e lá ficavam esquecidas pela sua família e pela sociedade. Além do abandono familiar, esses pacientes lidavam com o abandono do seu EU, da sua subjetividade, toda vez que eram expostos a situações de maus tratos, vivendo sem nenhuma dignidade. Essa desumanização do sujeito foi o efeito do genocídio cometido na época pelos estadistas e a indiferença dos médios com uma ética duvidosa que só queriam garantir a verba do governo do mês anterior, naquele mês vigente, então, não importava a qualidade do tratamento, mas o que importava era a quantidade de pacientes naquele ambiente, e isso está claro tanto no filme quanto no livro.
              E falando em ética, nem tudo que se quer, se deve ou se pode e assim vice-versa. E a partir desse princípio, construímos dilemas quando nos deparamos com questões que são adversas ao nosso exercer profissional, pessoal e social. Podemos mencionar também que a ética pressupõe de liberdade, dignidade, responsabilidade, igualdade de oportunidades, e enfim direitos.
             Dos 60 mil mortos na Colônia, 70% não tinham diagnósticos de doença psicológica, como foi mencionado antes. Muitos, eram alcoólatras, prostitutas, homossexuais, mulheres que perdiam a virgindade sem estarem comprometidas, pessoas tímidas, e até mesmo pessoas que não tinham como comprovar a sua identidade. E essas quando chegavam a Colônia, lhe eram raspado a cabeça, suas roupas limpas e seus pertences materiais (quando tinham) eram confiscados.
            A vida na Colônia era desumana, muitas das vezes os internos comiam bichos que disputavam o mesmo espaço físico com eles, e bebiam água imprópria para o consumo. Não tem como nem imaginar a vida em um lugar desses, qualquer resquício de humanização, era logo perdido por entre aqueles chãos imundos e frios os quais, eram obrigados a dormir. Como pessoas que se dizem detentores de conhecimentos podem ser influenciadas pelo sistema de corrupção a ponto de deixar o outro na estrema miséria e enjaulados?
            E devido a esses maus tratos, muitas doenças de saúde eram desenvolvida naquele lugar e com isso, morriam entre 6 à 16 pessoas em um só dia. A Colônia era um depósito de pessoas assim como muitas outras instituições também. Os mortos eram esquartejados no próprio local sem nenhum cuidado higiênico na frente dos internos, que lutavam para sobreviver a cada dia.
              Arbex (2003) diz em seu livro que o desabafo publicado pelo fotografo Luiz Alfredo da seguinte frase: “Aquilo é um assassinato em massa”, trouxe ao Brasil o representante da luta do fim dos manicômios Franco Basaglia que em sua entrevista coletiva, deixou claro todo o seu descontentamento com a seguinte frase: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como essa”. Quantos internos ali, não desejavam voltar ao convívio familiar, ter uma vida considerada “normal”, porque a sociedade nos atravessa tão duramente quando se trata da questão do SER.
            Neto passou pelas mesmas questões dos “não encaixados” na sociedade democrática. Ele sofreu no hospício o que o deixou desnutrido e acabado fisicamente e mentalmente. Uma parte interessante do filme é quando um outro paciente o chama e lhe entrega um gorro, mas a intenção desse gorro não é proteger a cabeça do frio, mas proteger os seus pensamentos, sua mente que ainda estava sã. Protegê-la da conspiração institucional, para que não perder-se a sua essência.
            Hoje existem muitos movimentos em prol do antimanicomialismo, pessoas que enxergam nos pacientes a capacidade de potencializar o seu lado bom, o que você tem de melhor, porque como diz Lobosque (1997) “o sujeito não é único nem idêntico a si mesmo... tomaremos como antimanicomial toda clinica que convide o sujeito a sustentar a sua diferença sem precisar excluir-se do social”.
“Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
...
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu.”.
(trecho da música Balada de um louco – Os mutantes)

            Sendo assim, louco é aquele que vê a vida de uma forma diferente, ou é aquele que lida com o outro sem se importar a quem? Devemos ficar atentos a qualquer irregularidade no atendimento das instituições especializadas a atender pessoas com distúrbios mentais. Se a nosso sistema de saúde para pessoas “normais” está um caos, imagine para aqueles que atendem os mais desprovidos de exercer sua cidadania. Os “loucos” também são pessoas de direitos e deveres, mesmo que estes estejam em uma realidade atípica da nossa.


Referência bibliográfica:
ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro – São Paulo: Geração Editorial, 2013.
LOBOSQUE, A.M. Princípios para uma Clínica Antimanicomial e Outros Escritos. Série Saúde Loucura 13. São Paulo: Ed. Hucitec. 1997.
BALADA DE UM LUCO – OS MUTANTES

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